Franz Boensch, o cirurgião alemão que vive em Pataias


Conheceu Portugal pela primeira vez quando o País tinha acabado de sair da ditadura, corria o ano de 1975. Franz Walter Boensch tinha amigos cá e foi com eles que percorreu a costa portuguesa, era então um estudante e já nessa época sentiu vontade de viver num território tão diferente do seu país natal. as temperaturas quentes, as praias e a sensação de estar sempre no verão eram um contraste com a muita chuva, neve e frio durante seis meses na alemanha. 

Voltou algumas vezes depois do Verão quente pós Revolução de abril, sempre de férias, mas foi só em 2003 que se radicou em Portugal, inicialmente na Madeira, onde viveu e casou com uma madeirense. Já a dois, a mudança para o continente deu-se cinco anos depois. Foi em Pataias que construíram o novo lar muito por culpa de um amigo pataiense emigrado na alemanha durante vários anos. “quando vinha a Portugal de férias passava sempre por Pataias para visitá-lo e por cá ficava vários dias”, conta o médico-cirurgião especializado em cirurgia do pé, que aprendeu desde logo as primeiras palavras em português. “Pataias era o sítio perfeito para estar por ser uma vila calma, tão perto do mar, com uma lagoa fantástica, a 20 minutos de Leiria e a uma hora de Lisboa”, justifica Franz Boensch, que ainda hoje, quase duas décadas depois de chegar a Portugal, sente a barreira da língua de Camões, “difícil de aprender”. O alemão é a sua primeira língua, o dialeto da sua região a Renânia é a segunda e o inglês a terceira língua. “O português é a minha quarta língua”, explica o médico-cirurgião, que procura ir à alemanha, onde tem os filhos, uma ou duas vezes por ano e mata saudades de falar alemão quando atende conterrâneos em Lisboa, onde integra o grupo de médicos da Embaixada da alemanha em Portugal. 

Franz Boensch nota bem as diferenças entre a medicina em Portugal e na alemanha, onde não há acesso gratuito à saúde e onde a quase totalidade da população tem seguro de saúde público. “Os utentes, independentemente de terem seguros públicos ou privados, têm acesso a todos os serviços de saúde onde quiserem e escolhem por quem são atendidos”, explica o médico. Por outro lado, enquanto em Portugal os médicos podem trabalhar no privado e no público, na alemanha, onde só é “doutor” quem tem um doutoramento, é proibido. 

Por cá, o cirurgião alemão, para quem Portugal é como se fosse o seu país, vai somando sucessos. O mais mediático é o da jovem Marta, de São João da Pesqueira, que vive com duas balas alojadas na cabeça desde 2012, quando foi baleada pelo ex-namorado. 

“Devido às deformações nos dedos dos pés causadas por problemas neurológicos, a Marta não conseguia andar sem dores” refere o cirurgião, que conseguiu corrigir a postura dos dedos e restabelecer o equilíbrio biomecânico dos pés à jovem a quem foi dito que nunca mais ia andar ou falar. “a Marta consegue fazer tudo. É uma pessoa com muita força de vontade e determinação. Para ela nada é impossível”, testemunha Franz Boensch, que divide a sua atividade profissional entre Leiria, Lisboa e o Funchal. 

A cirurgia é uma considerável parte da vida do alemão, mas os seus olhos brilham quando fala dos longos passeios de bicicleta na região, dos milhares de livros que já leu e, mais importante ainda, da enorme paixão por música e pela mão cheia de instrumentos que toca, entre guitarras, piano e saxofone. 

 

Texto: ANA FERRAZ PEREIRA 

Fonte: Região de Cister

Quarta, 31 de Março de 21