Grande Entrevista: José Fernando Maia Alexandre, Administrador Executivo na Caixa Central do Crédito Agrícola


 

José Fernando Maia Alexandre nasceu e viveu parte da sua vida em Alcobaça. Tinha o sonho de ser piloto aviador mas a vida levou-o a outros voos. Depois de cumprir o serviço militar na Força Aérea concorreu ao Crédito Agrícola e hoje é Administrador Executivo na Caixa Central e tem sob a sua responsabilidade áreas tão sensíveis como a comercial, marketing e tecnologia.

Qual a sua idade e onde nasceu? 

Tenho 56 anos e tenho Alcobaça como terra de nascimento e vivência permanente na fase adulta. Na minha infância e na adolescência morei vários anos na Nazaré, onde acabei por fazer todo o ensino secundário. Depois de fazer o serviço militar obrigatório concorri ao Crédito Agrícola (CA). Moro atualmente em Lisboa, há cerca de dois anos, devido ao facto de estar ligado à Caixa Central, evitando o percurso diário entre Lisboa e Alcobaça que fiz durante dez anos.

Estou desde 1986 no CA, ou seja, já tenho mais de 30 anos de serviço ocupando funções muito diferentes. Comecei como colaborador em Alcobaça, passei a gerente da Agência de Valado dos Frades e fui subindo na hierarquia do Banco. Fui Diretor Executivo da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Alcobaça, de 1992 até 2007, altura em que assumi funções no Conselho de Administração Executivo da Caixa Central, como Administrador Executivo e tenho sob a minha responsabilidade toda as componentes Comerciais, Marketing e Informáticas do Banco.

Como veio parar à Banca? 

Um bocado por acaso. Estava a cumprir o serviço militar na Força Aérea e o meu sonho era ser piloto. A paixão pela aviação ainda permanece, no entanto concorri ao Crédito Agrícola onde acabei por entrar e ficar.

A vida acaba por ser assim. Podemos ter uma ideia mas é só uma ideia. Nunca tive a ambição de chegar a um lugar de topo dentro do Banco, nem pensei que tal pudesse acontecer, até talvez por não ser licenciado. 

Recentes acontecimentos abalaram a credibilidade da Banca. Felizmente sobre o Crédito Agrícola nada se ouve. Como está o Crédito Agrícola, no meio desta descrença? 

O Crédito Agrícola está muito bem! Tem dos melhores rácios do sistema financeiro nacional.

A Banca depara-se hoje com alguns desafios que precisa de vencer rapidamente, como a credibilidade, a rentabilidade e a transformação digital. É um desafio constante trabalhar na Banco, que nos obriga a avançar sempre, todos os dias, um pouco mais. A regras regulatórias e toda a legislação resultante dos muitos escândalos que acontecer não só em Portugal, são hoje muito fortes e temos, felizmente, uma supervisão intrusiva com presença permanente nas Instituições de Crédito.

O Crédito Agrícola é uma instituição diferente de todas as outras que operam em Portugal. É uma organização horizontal, constituído por 80 bancos regionais que são coordenados pela Caixa Central, mas que cada banco regional tem os seus Órgãos Sociais e o seu Conselho de Administração, a sua estrutura local de apoio e de proximidade, com os seus associados e clientes, o que permite estabelecer uma relação diferente. 

Não é por acaso que durante esta década, um bocado perdida, em todo este período crítico de crise soberana e bancária, o CA ultrapassou toda esta turbulência, sem qualquer tipo de apoio público, vendo a sua quota de mercado aumentar constantemente e permanecer como um banco sem queixas ou conflitos. A razão é exatamente a maneira como está organizado, como está presente no território, próximo dos seus clientes que também são associados, assumindo riscos mais reduzidos que outros e mantendo níveis de confiança elevados, o que nos levou ao crescimento que outras instituições não experimentaram, neste período. Somos hoje considerados um Banco de refúgio porque o nível de confiança é muito elevado. 

O Crédito Agrícola (CA) até pelo seu nome é associado à agricultura mas o vulgar cidadão que precisa de fazer um crédito à habitação ou depositar o seu ordenado pode recorrer ao CA?

Claro que sim, absolutamente, temos disponível toda a oferta, como qualquer outra Instituição de Crédito. No entanto não negamos a nossa origem e continuamos a ser a principal instituição a apoiar a atividade primária. Continuamos a prestar especial atenção à atividade a agrícola e agro-industrial… E há muitas atividades e empresas por esse País que se não fosse o CA, teriam desaparecido. 

Houve um determinado momento em que a banca não quis apoiar este setor, mas nós continuámos a apoiar porque acreditávamos nos nossos clientes. Apoiámos os descendentes, as novas gerações, os novos agricultores, os filhos que continuaram e modernizaram os negócios familiares.

E isto porque nos regemos por um conjunto de valores que derivam dos nossos princípios cooperativos, pois somos uma Instituição de Crédito cooperativa que, ao contrário das outras Instituições, que são sociedades anónimas e capitalistas, não temos como objetivo a geração de lucros nem a distribuição de dividendos pelos acionistas. Temos como objetivo promover o bem estar dos nossos associados e clientes e encontrar as soluções mais económicas para lhe prestarmos um melhor serviço bancário de excelência. Estamos focados na satisfação dos nossos clientes e associados. Todos os bancos dizem isto não é? Mas nós somos diferentes, reinvestimos nas comunidades locais, apoiando as associações recreativas, desportivas e culturais locais. Como não temos como objetivo o lucro e por isso também somos mais moderados nas comissões que praticamos.

Somos a entidade bancária que em Portugal reúne menos reclamações dos clientes, também por esta relação de proximidade. Quando há um problema por exemplo em Alcobaça ou em Vila Real tudo é resolvido no local, a questão não tem que transitar para decisão em Lisboa, é resolvido por alguém que conhece as pessoas e as pode aconselhar e ajudar melhor.

Nós mantemos relações fortes e duradouras com os nosso clientes, pois estamos no local, somos de lá. Por isso não fechámos agências, mantemos a proximidade e isto faz toda a diferença. Não temos conflitualidades com os nossos clientes.

Às vezes quando há problemas, na outra Banca, muda-se o rosto, os clientes perdem o vínculo e a ligação com a Agência e o Banco. Não é assim que funcionamos, a nossa política é estar no local, temos rosto e interlocutores.

O Crédito Agrícola talvez por causa da sua história e nome é associado a uma certa falta de modernidade e pensa-se que se trata de um Banco mais pequeno do que os outros. É assim?

Somos a entidade bancária em Portugal com mais Agências. São coisas que não são muito conhecidas. Neste momento temos mais de 650 agências por todo o território nacional. Onde temos menos agências é em Lisboa e no Porto, porque nascemos na ruralidade do nosso território, o que neste momento até pode até ser uma vantagem competitiva, pois não temos o peso do legacy dos espaços físicos de outras e a banca digital está aí, eminente. Temos planos para trabalhar estas áreas e as novas plataformas electrónicas poderão cobrir algumas dessas necessidades e ajudar-nos na expansão nos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto.

É interessante que o vosso crescimento tenha sido tão sustentado nunca descurando a vossa história e os vossos valores mas também atento aos novos avanços tecnológicos.

De facto fomos mantendo agências por vezes em contra ciclo com o mercado, enquanto outros fechavam, porque o importante para nós são as pessoas, fazendo por vezes uma “banca social”. Mas temos projetos inovadores na área digital que serão lançados muito em breve. Estamos na linha da frente do avanço tecnológico, do melhor que é a possível fazer na oferta bancária, mas como privilegiamos a comunicação local, onde estamos mais presentes, esta informação não é do domínio publico. Para ter uma ideia. Por exemplo em Beja temos uma quota de mercado de  36%, em Trás-os-Montes de 32% e poderia citar-lhe mais, quotas que outros bancos não têm, nem de perto.

Qual é a diferença entre Caixa Central e Crédito Agrícola?

A Caixa Central é uma entidade bancária como qualquer outra, mas é um banco com mais responsabilidade do que os outros que operam no País, pois tem de orientar, fiscalizar e acompanhar as 80 instituições que fazem parte do Grupo Crédito Agrícola, que são por sua vez bancos locais com uma actividade bancária com algumas limitações, mas com capacidade de responder às necessidades dos seus clientes. A Caixa Central é a cabeça de Grupo e que consolida com as Caixas e outras empresas do universo Crédito Agrícola.  É uma espécie de holding. Todas as Caixas Agrícolas associadas da Caixa Central recebem dela, as funções e competências técnicas, ao nível dos produtos e dos serviços necessários à sua operação, bem como suporte regulamentar, não dispensando a supervisão das Caixas pelo Banco de Portugal.

Temos ainda empresas de Seguros Vida e Não Vida. Também temos duas empresas de tecnologia, a CA Serviços ACE e CA Informática SA, de que sou Presidente dos Conselhos de Administração e que desenvolvem as soluções tecnológicas para todas as 80 Caixas Agrícolas associadas da Caixa Central. 

E por sua vez essas Caixas Agrícolas têm as suas Agências?

Exatamente. Eu sou também Presidente do Conselho de Administração (não executivo) da Caixa de Alcobaça, Cartaxo, Nazaré, Rio Maior e Santarém, CRL que tem dezassete agências, em cinco concelhos. As Caixas têm uma determinada área social em que podem operar e que pode abranger um ou mais concelhos. A Caixa de Alcobaça começou ter o concelho de Alcobaça, depois também da Nazaré, mais tarde, em 2005 incorporou a ex-Caixa do Ribatejo Centro, que existia nos concelhos de Rio Maior de Santarém e mais recentemente, em 2017, incorporou a Caixa do Cartaxo. Mudou também o seu nome identificando todos os concelhos onde tem atividade directa. 

Somos uma entidade única e isso transforma uma entidade bancária completamente, pois tem responsabilidades locais, tem administradores locais, um rosto em cada localidade.

Por isso é natural que como Grupo Bancário e Segurador que somos, recebamos muito prémios, relativos à qualidade e satisfação dos nossos clientes. E a razão é sempre a mesma - não temos o lucro como objetivo, estamos focados no serviço, na qualidade e na satisfação dos nossos clientes.

Sexta, 27 de Setembro de 19