(Não podemos ser) Reféns da “Beleza”


A beleza feminina é uma concepção construída pelo homem, à mercê dos tempos e das culturas. Se em anos muito distantes o conceito estava subjacente à fertilidade e a alguma opulência, hoje em dia assiste-se ao oposto, deixando o universo da mulher pautado por métricas rigorosas, nem sempre fáceis de atingir. 

Não é novidade para ninguém que a indústria de mercado vende a perfeição como um produto de acesso imediato, basta querer. Basta usar o creme A para uma pele luminosa, é suficiente a máscara B para um total controlo da secura do cabelo, será simples obter a silhueta perfeita, se tomarmos o suplemento C. A tudo isto juntamos o lugar exigente onde nós, mulheres, nos vamos colocando, na ânsia da emancipação e na inconsciência do cansaço. 

A evolução feminina é claramente uma vitória dos tempos, mas necessita de ser encarada com uns olhos que a consigam fitar de diversas frentes. Não é fácil querer uma carreira, uma família, uma imagem perfeita e uma totalidade de funções, porque depois, no dia-a-dia, o esgotamento desgasta-nos lentamente, sempre que nos direccionamos para os nossos objectivos, dignos de pódio olímpico. 

Aos vinte até talvez consigamos abranger tudo sem grande dificuldade, a força da juventude alcança até o inalcançável. Aos trinta já nos falta a ginástica para gerir tudo o que é preciso, as noites passam a ser mal dormidas, a união entre a carreira que se ambiciona e a família que nos sustenta o ego e o coração, torna-se difícil de conjugar, e nem sempre se consegue a devida organização que nos permite o primor dos anos passados. Aos quarenta a energia já pode desanimar perante as imposições, e as noites mal dormidas, ocultas pela maquilhagem na década anterior, surgem agora indisfarçáveis, nos olhos, na impaciência, nos índices de felicidade, e é muitas vezes aqui que a psicofarmacologia inicia a sua era dos milagres. 

Porque só um milagre salva a mulher de hoje em dia. A mulher de hoje em dia, se quiser enquadrar o padrão ocidental da beleza, é uma mulher ideal, desenhada a escopo por um artista em plena ganância da arte: magra, sem reflexo de excessos, de tez limpa e luminosa, numa total ausência de fadiga ou alteração hormonal. É ela que vende, é ela que movimenta o mundo, é ela que define o trajecto indicador da realização pessoal.

Junto a este desenho utópico, a mulher alia ainda as exigências familiares e laborais, nas quais, claro, também quer roçar a perfeição. Dorme oito horas por noite, em nome da dita beleza, trabalha oito horas fora de casa, em nome da independência, treina uma hora no ginásio, em nome da saúde física e mental (e da exigência da elegância), e divide o resto entre os filhos, a logística dos dias, o marido ou companheiro, a restante família, a casa, as filas no trânsito infernal, o salão de beleza, e o espelho da amargura, de nunca atingir o ideal.  

Urge encarar que, e por muito que consigamos acumular tarefas, iremos sempre falhar redondamente em muitos lugares por onde passamos. Porque somos humanas, porque não somos perfeitas… Falhamos nas noites que não dormimos, porque na nossa cabeça erguemos o impossível, falhamos no trabalho que nem sempre alcançamos como gostaríamos, mas do qual dependemos para nos sentirmos mulheres de sucesso, falhamos na imagem, que fica sempre tão aquém da publicidade que nos vendeu a ideia da perfeição, que afinal, e a bem da verdade, não vem num boião de fina forma, a custo relativamente elevado. 

E o que depois sobra daqui, ninguém aparenta entender. A guerra tantas vezes travada para sobreviver à exigência, passa despercebida, engolida por esta enorme cadeia de estereótipos estandardizados. Mas daqui sobeja uma luta diária entre o que somos realmente, e o que a sociedade espera de nós. O padrão não estima o desalinho, os quilos por perder, as olheiras por disfarçar, as roupas amarrotadas do quotidiano. O padrão não perdoa o cansaço de quem corre, não aprecia o corpo real, as marcas do tempo e da criação da vida, a impaciência perante a exigência de quem necessita de nós. Afinal, uma senhora não se zanga: uma senhora não apresenta sombras de imperfeição…

E é neste trajecto, muitas vezes infeliz, imprudente e incauto, que percorremos uma jornada contínua, dupla, tripla, onde o que realmente importa, o Eu feminino e individual, não ganha espaço e acolhimento. Porque só mais tarde, quando a exaustão do cansaço inicia a sua reorganização, percebemos que talvez seja prudente redefinir o que nos faz falta e bem. E o que nos faz falta e bem, não pode nunca ser uma norma padronizada, tabelada pela publicidade e pela sociedade. Não pode ser uma guerra de competências, de imagem e de lugares comuns. Não pode ser a redução do corpo e dos sonhos, à pobreza da “perfeição”. 

Sorriam dos vossos traços imperfeitos. Não há outro corpo na vossa vida, que vos possa fazer felizes.

Segunda, 16 de Dezembro de 19