Pense bem antes de ter um cão - Responsabilidade, conhecimento e amor na dose certa.


Sérgio Franquinho nasceu na Nazaré e cresceu em Cela. Teve, desde que se recorda, uma enorme paixão por cães, que pedia repetidamente aos seus pais sem que estes lhe concedessem a concretização do sonho. Aos 12 anos a sua madrinha, mudou o rumo da história da sua vida oferecendo-lhe uma cadela Boxer, com quem cresceu e que o marcou de modo determinante, fazendo crescer nele um amor enorme pela raça. Dedicação que dura até aos dias de hoje e que o impeliu a tornar-se criador de boxers e treinador. 

 

Qual deve ser o perfil de quem adquire um Boxer?
Os boxers são cães muito activos portanto à partida os donos não devem ser sedentários e devem pensar bem antes de tomarem essa decisão e responsabilidade. Equacionar friamente se têm vida para ter um boxer. Um boxer pode viver num apartamento desde que não viva numa varanda como infelizmente vejo e sei de tantos cães. Ninguém é obrigado a ter animais mas já é obrigado a tratá-los como necessitam – quer se trate de cães, gatos ou outros. É essencial conhecermos o que temos. Não é diferente do que se pode passar com uma criança, do mesmo modo ninguém é obrigado a ter filhos mas se tomarem essa opção consciente são obrigados a dar-lhes carinho, educação, abrigo, alimentação, passear com eles. etc ... não os podem negligenciar a nenhum nível.
Voltando aos cães e aos boxers em particular, estes precisam de ir à rua 3, 4 vezes no mínimo. De uma maneira geral um cão precisa de passear e de fazer exercício regular, tal como nós… A vida sedentária vai sempre degenerar em problemas de saúde a médio prazo. 

 

Nenhum cão é igual, tal como nenhuma pessoa é. Durante todos estes anos e depois de lhe terem passado pelas mãos tantos cães, houve entre eles algum que se destacou?

Chamava-se (Athus) e foi com ele que tive a melhor ligação. Foi uma relação de um encanto diferente e quase mágico. Revelou um apego diferente . 

 

Há quanto tempo tem a escola de treino e como surgiu a ideia?
A escola surge com a segunda boxer que adquiri quando tinha 25 anos – no fim de vida da primeira. Inscrevi-me numa escola para aprender o treino. Gostaram da maneira como eu conseguia interagir com os cães e convidaram-me para ajudar. Durante o período de um ano trabalhei com eles. Entretanto o dono da escola mudou de residência e eu fiquei com os seus alunos. 

 

Quando se refere a alunos, refere-se aos cães ou aos donos ?
A ambos. O trabalho destina-se a ambos.
Se temos um cão mimado, normalmente a responsabilidade é dos seus cuidadores. Nunca poderemos encarar a educação sem ser  nestas duas vertentes – cão/dono. Tal como no caso das crianças – repito a analogia – os pais têm de saber como lidar com os filhos. Não os podem enviar para uma escola e esperar que isso funcione assim e que eles apareçam formatados. O desafio acontece no dia a dia, é ai que solidificam a aprendizagem e ensino: repreendendo e gratificando.
No caso de se tratar da educação de cães, é preciso perceber-se como é que o cão assimila
o conhecimento, como pensa e sente. Um cão não é um ser humano. Tem características e uma história biológica próprias. 

 

Cada vez há mais animais de companhia nos lares humanos, isso significa que as pessoas os tratam melhor?
De uma maneira geral melhorou bastante a consciência das necessidades e direitos de um animal de companhia. Já não são considerados ”coisas” pela lei. Há leis que penalizam os maus tratos que devem ser afinadas para que as pessoas que maltratam e abandonam sejam severamente punidas. Há também o risco de muitas vezes serem humanizados, vestidos e calçados como se fossem crianças. Estes exageros também não contribuem para o seu bem estar.

Gostar de cães ou de outro animal é gostar deles exactamente como são. Não são crianças nem tão pouco peluches. Não devem ser passeados quando o asfalto está muito quente, nem deixados ao frio. Eles são mamíferos como nós. Sentem as diferentes temperaturas, sentem afecto por quem os alimenta e cuida, sentem saudades... 

 

É importante que quem queira ter um animal de companhia conheça as suas características?
Claro que sim. É fundamental saber como reagem, pensam e raciocinam. De uma maneira geral um cão quando está contente abana a cauda o que num gato significa o oposto. Antes de nos aproximarmos de um cão devemos atender ao seu aspecto geral. Está tenso?
Qual a postura do seu corpo? Não o fixarmos com o olhar porque tal pode fazer com que se sinta intimidado e reaja negativamente. Quase sempre que um cão ataca a culpa é do dono, ou de quem com ele interage. 

Para evitar más interpretações é necessário que os donos saibam como tratar e agir com os seus animas de companhia. Apresento um exemplo de um caso bastante comum e que é normalmente mal interpretado. Um cuidador chega a casa e encontra as pantufas roídas, o sofá mordido e o papel higiénico desenrolado pela casa a rodear a mobília, entre outras diabruras. A sua primeira reacção é gritar. 

“O QUÊ QUE TU ANDASTE A FAZER ENQUANTO ESTIVE FORA? ESTRAGASTE O SOFÁ... DEVIAS APANHAR!” O cão reage a isso ficando com a cabeça baixa, aparentemente a dar-se por culpado e arrependido. Pois este é apenas um exemplo frequente e flagrante de um completo engano. O cão pode ter feito esses estragos há horas, para caçar e brincar, sem qualquer consciência de que errou. Quando o dono chega a casa e depara com todos os estragos, grita e zanga-se. O cão reage a isso. Ao tom de voz agreste, sem perceber porque razão não lhe fez festas como de costume quando chega a casa. Fica então nervoso, inseguro, cabisbaixo e receoso por este motivo. E as pessoas pensam que está arrependido, porque o julgam como se fosse um ser humano. Não está arrependido e isto significa que poderá repetir tudo, se tiver oportunidade e ficar outra vez sozinho em casa. O cão só pode ser repreendido em flagrante delito. É a única maneira que tem de perceber que está a proceder mal. Não é necessário usar a força, pode usar-se (a voz e a postura corporal). Portanto se ao chegar a casa se deparar com um espectáculo semelhante ao descrito não há nada que possa fazer para lhe mostrar que não o deve repetir, deve aguardar pela próxima vez.
Um cão pensa e sente como um cão, da mesma maneira que um gato pensa e sente como um gato. No caso dos primeiros a recompensa é o grande estimulo para a aprendizagem. Tudo na sua mente funciona como um jogo: o que posso fazer para receber festas, para comer um biscoito, para recuperar o meu brinquedo?

 

O que pensa das raças perigosas? 

Penso que perigoso é o ser humano. Um cão de determinada raça precisa de ser tratado de acordo com a informação de que dispomos sobre a mesma. Sem nunca esquecermos que normalmente quando ataca se está a defender. Os cães são o reflexo dos donos, se têm comportamentos agressivos é porque os donos são agressivos e promoveram esse comportamento. 

 

E os criadores dessas raças? Serão também responsáveis quando vendem um exemplar que mais tarde possa ser nocivo à sociedade?

Será melhor explicar em que medida um criador pode ser também responsável e em que medida seria importante que os canis e criadores fossem alvo de inspecções que garantissem que os cães comercializados fossem do ponto de vista físico e mental saudáveis. É importante frisar que as características mentais e os danos que aí possam existir quase nunca são visíveis. 

 

O que leva um cão a atacar e a morder? 

Normalmente esta reacção está associada ao medo. O cão sente receio e a melhor defesa é o ataque. Um cão confiante gere melhor as emoções. Pode acontecer que por qualquer razão haja um desequilíbrio cuja origem é genética ou que tem a sua origem na educação, por isso digo que o ser humano é sempre o responsável, pois o problema pode ocorrer na criação ou na educação. Um cão que seja naturalmente agressivo não deve ser utilizado na reprodução. Existem testes de aptidão à reprodução para despistar isso . Se um cão é desequilibrado deve ser castrado. 

Das 7 raças que estão identificadas como sendo raças potencialmente perigosas, a que conheço melhor é a Rottweiler. Trata-se de um cão de guarda, de trabalho, protector, tem no entanto o seu temperamento. Não são maus por natureza, muitas vezes podem ocorrer situações perigosas mas o menos culpado é o cão. No entanto é mais fácil sacrificá-lo em primeiro lugar. 

Assiste-se a casos de uma crueldade imensa e apesar da lei, nunca vi ninguém ser preso.
A culpa reside ou no criador ou no educador. Obviamente que o ataque de um cão de 40kg pode causar danos mais graves. Eles nem sequer têm noção da força que têm. Não se deixa, por exemplo, um recém nascido ao pé de um cão, porque pode acontecer uma tragédia irremediável. Tudo deve ser uma questão de conhecimento e de bom senso. A sociedade portuguesa em relação aos cães é de extremos.

 

Há muitos casos de abandono, principalmente nas férias...
Pois esse é um dos motivos que me leva a criar cães. Ao pagarem por eles a maior parte das pessoas pensa melhor, pois já investiu. Não há bebés feios em raça alguma e é muito fácil oferecer ou querer ter um cão, mas depois tem de se pagar alimentação e veterinário e isso já não tem tanta graça, ou se o cão envelhece...

Mas voltando à responsabilidade dos canis na criação de animais saudáveis. Há canis que cruzam irmãos para apurar a raça sem perceberem que há riscos na consanguinidade. A canicultura em Portugal não está regularizada. Há canis que estão licenciados pela Direcção Geral de Veterinária mas o que está verdadeiramente licenciado são as instalações. Claro que é importante que as instalações estejam aprovadas, que existam boas zonas de apoio as maternidades, que as boxes tenham dimensões apropriadas e de qualidade, que a parte sanitária esteja assegurada, que exista espaço para os cães se exercitarem. 

 

Mas não existe nenhuma entidade que faça testes e estudos de DNA?
Começa a haver alguma sensibilidade para essa questão mas na realidade a entidade responsável é o Clube Português de Canicultura que gere o livro de origens, a genealogia e o pedigree. Mas não há qualquer controlo sobre as informações fornecidas pelo criador. 

Existe um controlo para as instalações mas ninguém controla o trabalho a nível genético dentro do canil isto é: a escolha dos progenitores e a consanguinidade. 

Se eu crio uma raça tenho de ser um criador consciente e essa consciência passa pela morfologia- o aspecto geral do cão- mas há problemas que são mais importantes que a morfologia como o despiste de problemas de saúde, doenças que são geneticamente transmissíveis... 

Isso é importante para que haja uma garantia de que se compra um exemplar saudável
a nível físico e psíquico. Fazemos o despiste de 3 doenças mais frequentes: espondilose, displasia da anca e cardiologia, Além disso temos parâmetros para saber se podermos utilizar determinado reprodutor. Um dos aspectos importantes que ainda não mencionei é o carácter que estudamos com teses de sociabilidade e de coragem. A agressividade pode ser herdada geneticamente. 

Um cão que consiga passar estes exames, despistando uma série de situações, é um exemplar que será certamente mais saudável e dará mais alegrias aos seus donos. 

Mas se não há um controlo sério, poderemos trazer para casa problemas graves...
A ganância associada a estas praticas pode ter resultados devastadores para o cão, pois é sempre a sua vida que é ceifada primeiro.

sexta, 19 de junho de 20